No pedido de ajuda está sempre implícita a esperança da existência de uma solução. Será que ao desvendar o que está por detrás do sintoma o casal aguenta continuar o processo terapêutico? Ou poderão assustar-se com o que vão descobrir? Como vai relacionar-se agora a partir deste novo espaço que ensaia intimidade e proximidade.

Sabemos que as questões da resistência estão sempre presentes neste processo, e nem sempre os dois estão envolvidos da mesma forma e com a mesma profundidade. É importante perceber e sentir o investimento de cada um. Nem sempre o investimento é conjugal no "Nós", pode existir uma necessidade de estarem juntos, um hábito de anos com base na casa de família, nos filhos, nas razões económicas e sociais, na dificuldade de separação ou na dificuldade da intimidade.

No início da relação o amor e o outro estão idealizados e sonhados. Frequentemente se coloca a questão clássica: se existe só a família, onde está o casal? Depois da paixão e do desejo da fase inicial do enamoramento o casal depara-se com a realidade do outro, deixa de existir o outro idealizado e aparece o bom e o menos bom, os defeitos e as qualidades. Ver o outro como na realidade ele é, é um processo. Um processo que muitas vezes não está claro.

Deparamo-nos na clínica com casais em situações de grande sofrimento, e por vezes com grande dificuldade de separação num clima simbiótico e dependente. Veja-se as relações abusivas, e até de violência doméstica que duram anos, na repetição de padrões familiares. A Terapia Psicanalítica de Casal pode ser um ótimo indicador para o tratamento de pessoas mal individualizadas, como nos diz Feres-Carneiro, T.

No decorrer da terapia começam a surgir os verdadeiros motivos causadores do sofrimento, que o casal não compreende no seu todo, mas que aparece manifesto em questões variadas como na intimidade, no quotidiano, nos filhos e na família. É no núcleo familiar e do casal que se vão projetando as angústias.

Poder aprofundar o conhecimento de si de forma individual mas dentro do casal passa a ser o trabalho psicanalítico com o terapeuta, assim como a ligação do individual à criação do "Nós" criado pelos dois. Afinal, como será poder estar presente um para o outro?

Integrar a individualidade de cada um faz parte da maturidade de um casal, para poder criar o Nós, mas a dificuldade em suportar a separação entre o eu e o outro poderá ser ameaçadora e remete para fragilidades internas e precoces da personalidade de cada indivíduo.

Segundo a teoria vincular, o encontro do casal é estabelecido através de um contrato inconsciente, e a grande prova a superar no caminho conjugal será a dificuldade em reconhecer a diferença "entre mim e o outro", ou seja, a dificuldade de suportar a alteridade.

Ruffiot e Eiguer, terapeutas psicanalíticos de família e de casal, acrescentam que o facto de se poder trabalhar em conjunto com o casal através da relação transferencial, pode tornar consciente os vínculos que os unem através da associação livre para permitir perceber o funcionamento do aparelho psíquico do grupo conjugal. É neste "mundo fantasmático compartilhado, com afetos, tensões e defesas comuns" que reside o inconsciente conjugal.

Juntar ou separar, reparar ou mudar, desistir ou lutar, é o caminho que iremos percorrer juntos e que vai estar diretamente ligado à história pessoal de cada um e ao seu legado familiar, às suas necessidades e às suas pertenças, pois foi assim que um dia nasceu um casal.

Bibliografia:
Carneiro, Terezinha Feres. Diferentes abordagens em terapia de casal: Uma articulação possível? Temas em Psicologia, 1994.