"É preciso ser três para que uma criança seja concebida; o pai, a mãe e o sujeito que se encarna na primeira célula devida à conjunção de duas células iniciais. Se nos esquecermos de que somos três, a criança, essa, nunca o esquece."
Dolto F., 1999

A separação e o divórcio traz ao casal uma variedade de perdas significativas. Começa pela perda da família construída, perda de segurança, estabilidade económica e perda do tempo e convívio diário com os filhos.

Com o aumento da taxa de divórcios a vida em família foi-se alterando e é comum hoje em dia as crianças crescerem entre a casa da mãe e a casa do pai. Adaptam-se a novas casas, novos quartos, e novos irmãos. Adaptam-se às madrastas e padrastos. Outras vezes não se conseguem adaptar e levam o seu tempo. Apesar de ser uma situação difícil poderá ser sempre integrada.

Muitos dos estudos sobre o divórcio apontam que não é o divórcio em si o causador de transtornos na vida dos filhos, mas sim a perda de um dos pais ou o conflito que se possa instalar entre os adultos.

Como se sentem então as crianças?

Na minha prática clínica com famílias em litígio num tribunal de família e menores bem como na experiência em consultório ouço diariamente relatos de crianças muito sofridas que são arrastadas em processos longos e penosos para a sua frágil idade. As mesmas pessoas que criaram a sua história de vida são agora dois inimigos.

Ficam retidas num lugar que não é seu, muitas vezes invertido, tomando até por vezes conta dos pais e das suas fragilidades. São tanto testemunhas de conflitos instalados na relação parental, como podem ser testemunhas em tribunal prestando depoimentos contra um.

São crianças obrigadas a escolher um lado, correndo o risco de ficarem presas num totalitarismo como nos diz Coimbra de Matos (2007), quando na verdade a criança necessita de uma relação com a mãe e uma relação com o pai.

Ora a criança nunca quer escolher, só quer ter pais, e precisa deles para dar continuidade ao seu desenvolvimento. O facto de se encontrar no meio de um conflito que não é seu pode comprometer o seu desenvolvimento.

As crianças ficam muito aflitas no meio do conflito sem saberem se a culpa é delas e muitas vezes são elas próprias que não querem estar com um dos pais. Não porque não gostem deles mas porque o conflito é tal que não aguentam e rejeitam. Querem proteger-se de quem não as protege, porque não aguentam uma zanga que não é a sua. Outras vezes adoecem e o corpo fala por si, pois não têm maturidade emocional para descodificar o que sentem. Todas as reações dos pais são sentidas através da relação e fazem parte integrante de muitos sintomas que aparecem. Este sintoma da criança dilui muitas vezes a ansiedade do adulto.

Dolto (1999), psicanalista e pediatra francesa, diz que um alívio invade a criança, quando ela pode colocar palavras no seu sofrimento, quando alguém a informa e a desculpabiliza, pois muitas vezes sentem-se culpadas da separação dos pais.

Procurar ajuda técnica especializada como no caso da Terapia Familiar/Parental pode ajudar a decifrar e nomear conflitos que não são mais do que afetos camuflados ainda em período de luto. Fazer este luto do casal conjugal poderá ajudar na transição para o casal parental. Senão o casal fica retido numa posição de contínua distorção da realidade enleados numa dor que não os deixa ver os próprios filhos.

Esta tomada de consciência pode fazer toda a diferença na passagem de um divórcio conflituoso para um divórcio responsável e pensado onde os filhos são olhados e sentidos.

Quando o casal se separa é necessário que acautele todas as necessidades da criança. Winnicott (1945), pediatra e psicanalista inglês, fala num ambiente suficientemente bom, não apenas que supre as necessidades físicas da criança mas que se adapte às suas necessidades sejam elas físicas ou emocionais, protegendo-a e permitindo o seu movimento espontâneo sem a perda do seu ser. Este ambiente que envolve a criança e lhe dá condições para crescer em segurança e desenvolver-se é seu de direito sejam os pais um casal conjugal ou um casal parental.

Numa situação de separação e divórcio, a união conjugal pode ser desfeita mas o vínculo filial permanece para sempre. O desejo da criança é a continuidade da relação e do vínculo. É nos olhos dos pais que se veem a si próprios.

Bibliografia:
Dolto, F. (1999). A criança e a família. Desenvolvimento emocional e ambiente familiar.
Matos, C. (2007). Vária. Existo porque fui amado.
Winnicott, D.W. (1945). Desenvolvimento emocional primitivo.