Os pais separados e com guardas partilhadas enfrentaram neste período maiores desafios, medos, conflitos, incertezas. Com as famílias obrigadas a permanecer em casa em confinamento quisemos ouvir e trazer a experiência de uma mãe com um filho de 9 anos. Descreve esta experiência como um marco positivo, no sentido em que o tempo com a criança aumentou, e não só, teve continuidade.

Nas Guardas Partilhadas são muitos os pais que sentem este tempo como um tempo que é descontinuado e doloroso, exige sacrifício e maturidade. Por outro lado, as crianças também ficam tristes nas despedidas entre casas, e também elas vão crescendo a aceitar estes tempos. Tempo físico e tempo interno, poder despedir-se e poder voltar, mas ter dois lugares seguros, a casa da mãe e a casa do pai.

"A pandemia trouxe-me a oportunidade única, irrepetível, e maravilhosa de estar mais tempo com o meu filho que só pode ser igualada a quando ele nasceu. De que outra forma iria eu estar com o meu filho tanto tempo do que numa situação como esta de pandemia? Tem sido uma das coisas mais espetaculares que me aconteceram, é um sentimento muito grande de gratidão pelo 'vírus', que me tem permitido um aprofundamento da minha relação com o meu filho. Os primeiros dias foram passados com ele a brincar. Demoramos um tempo lá em casa a estabelecer uma nova rotina, o meu filho a fazer o trabalho dele que são as aulas, e eu no meu teletrabalho."
"A guarda partilhada para mim sempre foi uma situação muito dura, foi uma decisão que foi tomada em conjunto, mas por iniciativa do pai, por mim eu nunca a teria, apesar de saber da importância fundamental que um pai tem na vida de uma criança."
"Obviamente que também trouxe conversas difíceis com o pai. Senti muitas vezes que o pai não tinha os mesmos cuidados que eu, nós somos diferentes... Eu tenho feito os protocolos higiénicos ao rigor e o pai dele não, ele tem cadelas, sai todos os dias à rua e eu não. Em plena quarentena o pai fez visitas a familiares, e eu fiquei irritada e tivemos de ter conversas difíceis."

Parece que esta situação trouxe a esta mãe a oportunidade de reeditar a função maternal, da segurança e proteção absoluta dos primeiros tempos do bebé, num tempo inseguro de uma pandemia. O poder cuidar e assegurar um bom holding que é a tarefa materna de dar colo, dar suporte físico e psicológico.

Esta situação de dependência inicial do bebé foi revivida, quase como quando a mãe e o bebé estão fundidos no início deste período primário que é o nascimento.

No que diz respeito à Guarda Partilhada com o pai da criança, não parece existir algum problema de maior, antes pelo contrário conseguem conversar sobre as suas diferenças, na certeza de que sempre assim será, os casais que vivem juntos na mesma casa também se deparam com desafios diários.

Foi um momento excepcional este, num tempo único e de excepção, descrito por esta mãe. Reviver o passado bom que é o nascimento de um filho.